Abrindo as fronteiras da Etnografia urbana: entrevista com o Professor Dr. José Guilherme Magnani

Atualizado: 23 de Nov de 2020

Por: Laboratório de Estudos Populacionais e Urbanos (LEPURB)

Me. Francivaldo José da Conceição Mendes (UFPA/PPGEO)

Prof. Dr. José Queiroz de Miranda Neto (UFPA/PPGEO)


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Como referenciar essa entrevista:


MAGNANI, Guilherme. Abrindo as fronteiras da Etnografia urbana: entrevista com o Professor Dr. José Guilherme Cantor Magnani. [Entrevista concedida ao laboratório de Estudos Populacionais e Urbanos da UFPA]. MENDES; F. J. da C; MIRANDA NETO, J. Q. de. LEPURB, Altamira-PA, Nº 1, p. 1-25, novembro, 2020. disponível em: www.lepurb.com.br/post/entrevistamagnani

Imagem: Praia artificial da orla de Altamira-PA

Fonte: José Neto, Disponível no acervo LEPURB



Pensar a cidade em sua complexidade é, sem dúvida, um dos grandes desafios da ciência e uma tarefa que exige do pesquisador um conhecimento interdisciplinar. O professor José Guilherme Cantor Magnani reúne, com absoluto rigor metodológico, essas características, concentrando sua análise nos aspectos que envolvem o conceito de lazer em suas diferentes manifestações.


A entrevista a seguir foi gentilmente concedida ao Laboratório de Estudos Populacionais e Urbanos da Faculdade de Geografia da UFPA/Campus Altamira (LEPURB).


O LEPURB, a Faculdade de Geografia do Campus Universitário de Altamira e a Universidade Federal do Pará agradecem imensamente ao Prof. Magnani por nos conceder essa entrevista, ao qual será publicada integralmente em nossa página eletrônica: www.lepurb.com.br

LEPURB: [Francivaldo Mendes] Inicialmente, gostaríamos de agradecer-lhe pelo tempo dedicado a essa entrevista; certamente o LEPURB e a Universidade Federal do Pará ganham muito com isso. A ideia é estabelecer essas interlocuções com outros pesquisadores, com outras formas de entender a realidade, mas ao mesmo tempo, expor um pouco daquilo que debatemos aqui na Amazônia. Elaboramos algumas perguntas em caráter norteador, atentando para eventuais flexibilidades já que a ideia é aproveitarmos esse momento para construirmos um diálogo bem franco, sem muitos formalismos.


Prof. Magnani: Agradeço o convite de vocês. Eu apenas observei, em princípio, que seria inviável uma entrevista de forma escrita com 14 perguntas, pois percebi que iria escrever um artigo de 30 páginas, não é? Seria muito bom para vocês ... Mas vão ter que escutar, transcrever, editar, devolver-me para correção. Depois pode ir para publicação, combinado?


LEPURB: Certo. Combinado.


Prof. Magnani: Quando se escreve de uma maneira mais formal é necessário ser muito preciso. Dessa forma online, a entrevista fica um pouco mais solta e não quer dizer que fique menos precisa, pois podemos corrigir quando for transcrita e revisada. Então eu resolvi propor essa conversa de forma a poder encontrar-me com vocês, mesmo no contexto de pandemia e acho que mesmo assim o contato é pessoal. Por isso propus mudar a nossa ferramenta de encontro através dessa plataforma, mas as perguntas estavam muito bem direcionadas, realmente com foco na pesquisa. Ficou um esquema muito amplo. Agora é vocês que comandam a conversa: sabem que tenho um ex-orientando aí no Pará, o nome dele é Antônio Maurício, fez doutorado comigo em Antropologia na USP, agora é professor de História e atualmente faz pós-doc.


LEPURB: [Francivaldo Mendes] Sim, conheço. É o Maurício Costa. Estuda o circuito bregueiro em Belém[1], não é?


Prof. Magnani: Sim. Ele estudou grupos de brega na periferia de Belém, grupos de música popular, seu trabalho é muito interessante; essa foi a opção dele, vocês têm a suas.


LEPURB: [Francivaldo Mendes] Gostaríamos de começar por aquela questão de número um, que é para nossos leitores conhecerem o professor José Guilherme Magnani pelo próprio. Então queria que você fizesse uma apresentação da forma que melhor lhe conviesse.


Prof. Magnani: Não vou descrever uma trajetória muito longa, vocês têm meu currículo. De uma maneira breve, sou formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná. Depois fiz mestrado na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) no Chile, para onde me dirigi logo de formado, pois era líder estudantil e, como muitos na época, tive de sair do país, como exilado político: três anos no Chile e depois quatro na Argentina onde continuei trabalhando mais na área de semiótica, de linguística e, finalmente, voltando aa Brasil, fui fazer meu doutorado na USP; a professora que me acolheu foi Ruth Cardoso.


A professora Ruth Cardoso e a professora Eunice Durmam foram duas mestras que valorizo muito porque na verdade, pioneiras, abriram o Departamento de Antropologia da USP para a Antropologia Urbana. Até então, a Antropologia no nosso departamento era bastante focada na etnologia indígena e no tema dos imigrantes, mas a periferia de São Paulo, que emergia como um cenário interessante de pesquisa não era muito estudada e foram elas que iniciaram seu estudo. Fiz meu doutorado sob orientação de Ruth Cardoso com um tema que já entrava na questão do lazer, o circo-teatro. Não sei se vocês conhecem, mas daí saiu meu livro chamado Festa no Pedaço[2] e foi um trabalho inovador porque na época poucos davam importância para a questão da festa, do entretenimento, da cultura popular, em suma. Importante mesmo, para as ciências sociais, era a política: o sindicato, os partidos políticos os movimentos sociais. Agora, circo-teatro, era um tema meio trivial, não é?


Estudei o circo porque no meu ponto de vista era uma forma de entender o dia-a-dia dos trabalhadores de São Paulo, vindos do Norte, do Nordeste, do interior de São Paulo. Eles estavam constituindo um modo de vida na metrópole. E o entretenimento, a festa, as celebrações, numa perspectiva bem antropológica, são constitutivas do seu cotidiano: era então um trabalho pioneiro, abriu um caminho interessante porque pude aprender com eles o que é fazer uma etnografia urbana. Claro que fui com um projeto de pesquisa, pois era condição para a pesquisa de doutorado e uma das questões, na época era a discussão se a cultura popular é conservadora ou progressista. Aí eles me disseram, com outras palavras: “Professor, pouco importa se a cultura popular é progressista ou conservadora, o circo-teatro é um bom lugar onde a gente se encontra. E a gente pode frequentar porque tem teatro”.


Notem que fato curioso: os atores sociais ensinando um caminho ao antropólogo. Havia então duas alternativas pela frente: continuar com a linha definida no meu projeto inicial, que tinha financiamento da FAPESP, ou então seguir o que eles me sinalizavam. Preferi segui-los. E me apontaram um caminho muito interessante dizendo: “Olha, o lugar onde a gente se encontra na periferia é o nosso pedaço”. É daí que surgem as minhas categorias, a primeira delas foi a do pedaço, depois a mancha, o circuito, as categorias que até hoje eu e meus orientandos empregamos nas pesquisas.


Então essa é minha trajetória. Atualmente estou aposentado da USP, mas continuo orientando no mestrado, no doutorado como professor sênior, tenho várias pesquisas em andamento que estão abrindo diversos campos para os alunos. Então sigo trabalhando, só que agora saindo um pouco para além do ambiente meramente acadêmico e respondendo a demandas da sociedade. Depois eu até posso contar a vocês sobre duas ou três pesquisas que a gente está fazendo, com atores sociais para os quais a etnografia é uma ferramenta útil para entender a dinâmica que está acontecendo em seus contextos. Isso é, em breves palavras, minha introdução para terem uma ideia, digamos, da trajetória.


LEPURB: [Francivaldo Mendes] Professor, sendo orientado pela professora Ruth, pode-se dizer que você teve a forte influência da Escola Paulista de Sociologia, de Florestan Fernandes, Octávio Ianni?


Prof. Magnani: Sim, essa escola, a ELSP, tinha uma relação com a Escola Sociológica de Chicago, uma referência para a Antropologia Urbana, pois seu tema era constituído pelas transformações e problemas que essa cidade estava enfrentando, nas décadas de 1920 e 1930, em função da massiva imigração estrangeira (e também interna). A presença desses imigrantes europeus, sem conhecer a língua, os costumes, em condições precárias de moradia foi considerada como “patologia social” e encarados do ponto de visa de uma “ecologia humana”, como plantas competindo por espaço, recursos etc. O trabalho de campo realizado em busca de entendimento e soluções estabeleceu uma tradição que, em nosso caso, foi seguida em São Paulo pela então Escola Livre de Sociologia e Política, com seus famosos “estudos de comunidade”. Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Darcy Ribeiro, Sergio Buarque de Hollanda são alguns dos pesquisadores formados ou influenciados nessa tradição que, no caso paulistano voltou-se para o estudo da passagem de uma sociedade rural para a sociedade urbana.


LEPURB: [Francivaldo Mendes]: Nesse contexto, podemos citar a obra e o pensamento de José de Souza Martins?


Prof. Magnani: Em Viola Quebrada, um belo texto de José de Souza Martins, que costumo citar, traz a perplexidade de um caipira na metrópole paulista com sua moda de viola “Bonde Camarão”, ao entrar nesse novo meio de transporte


LEPURB: [Francivaldo Mendes]: E hoje, professor? Eu pergunto porque você fez dois recortes: o primeiro sugere uma forma metodológica de compreender o espaço a partir da concepção teórica. A outra, refere-se a uma incompatibilidade entre essa primeira perspectiva e aquela que desprende da sua ida ao campo. E hoje, como estão centralizadas essas questões a partir da USP, tendo por base esse recorte apresentado?


Prof. Magnani: Sou coordenador, atualmente, com a prof. Silvana Nascimento, do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP (LabNAU). Desde final dos anos de 1980, quando me tornei professor na USP, formei um grupo de alunos para poder pensar justamente esses novos temas que a periferia e a dinâmica urbana nos colocavam e assim fomos desenvolvendo muitas pesquisas, fazendo experiências em vários lugares tendo a cidade de São Paulo como laboratório, entre outros contextos, claro, como foi o caso de Antônio Mauricio que você citou. Nós nos diferenciamos um pouco da perspectiva macro de disciplinas como sociologia, demografia, urbanismo, etc. quando tomam a cidade em sua totalidade. Na tentativa de captar suas funções – não há como não lembrar aqui, de Le Corbusier[3] e sua visão da cidade modernista com as quatro célebres funções: o trabalho, o lazer, a circulação e a moradia. A cidade tinha que ter as funções todas.


Mas, para o olhar etnográfico, a perspectiva é outra: como é que eu chamei isso? Um olhar “de perto e de dentro”, que se contrapõe ao olhar “de fora e de longe”. Não que eles se oponham – antes, complementam-se, mas o olhar “de longe e de fora” é aquela visão macro que prioriza a cidade em seu conjunto. E o olhar “de perto e de dentro” é o olhar etnográfico, que vai observar os atores, em determinados cenários e identificar as regras de seu comportamento nesses cenários. Se nos remetermos às pesquisas clássicas da Antropologia, fica claro que os pesquisadores tradicionais sempre tiveram como seu recorte privilegiado aquelas pequenas comunidades, que hoje chamamos sociedades de pequena escala. São, por exemplo, os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, sociedades rurais isoladas etc., com as quais o antropólogo entra em contato por meio da “observação participante”. Costumo frisar que há uma espécie de tentação, a “tentação da aldeia”. Explico: como comparar uma comunidade dessas com São Paulo por exemplo, com seus 12 milhões de habitantes? Uma aldeia que cresceu demais? Como é que se aplica, aí, a observação participante? Faço uma aproximação com Evans-Pritchard[4], quando dizia que, ao abrir a porta de sua barraca, podia ver o que acontecia no acampamento ou aldeia dos Nuer e todo seu tempo era gasto em sua companhia; mas quando o antropólogo urbano abre a janela de sua quitinete em São Paulo, ele vê o quê? A empena cega do edifício em frente...


A “tentação da aldeia” é, ou considerar a cidade contemporânea como uma aldeia que cresceu demais, para além dos limites, ou ficar nos limites de sua “aldeia”: o terreiro de candomblé que estuda, ou o tempo evangélico, a torcida organizada de futebol, um bairro específico. O antropólogo pode até ficar especialista naquele terreiro, naquele bairro, ou centro cultural. Mas nestes casos, sua observação participante o isola, ele perde a dimensão macro da cidade. A saída para tal impasse é, sem dúvida, começar com o olhar “de perto e de dentro”, escutando os atores sociais, mas ao mesmo tempo lembrando que eles estão dentro de um contexto mais amplo.


A partir daí posso até contar para vocês algumas pesquisas que fiz ou orientei nessa perspectiva, que me permitiram entender a dinâmica urbana de maneira a não ficar refém de um recorte especifico, nem em generalidades sobre a cidade em sua totalidade. A cidade é inventada pelos atores sociais, os citadinos.

Então, voltando à pergunta que você fez, a saída é trabalhar nessa dupla perspectiva, complementando o olhar “de perto e de dentro”, que é o lugar da etnografia, mas sem esquecer que as diferentes práticas ocorrem num contexto mais amplo: a própria cidade.


LEPURB: [José Neto]: Nós pensamos que cada intelectual tem as suas referências, os seus clássicos, aquelas obras que mais influenciaram a sua obra. Como é que você pensa, por exemplo, hoje no conjunto da sua formação, a influência desses intelectuais do passado e qual a profundidade desses na sua trajetória?


Prof. Magnani: Bom, realmente é um conjunto grande de intelectuais, mas alguns, como você realça, marcam nossa trajetória. Desde meu tempo de mestrado no Chile um desses autores foi Lévi-Strauss, com o estruturalismo, na pesquisa que fiz sobre “Los Cuentos Campesinos como produtos ideológicos”. Eu estava fazendo meu mestrado lá na época do governo da Unidad Popular e o meu orientador era Emilio de Ipola. Ele sugeriu que eu trabalhasse com a questão da cultura e ideologia. Então fui a campo, literalmente, pois trabalhei com pequenos proprietários rurais com sua ideologia, melhor dizendo, com manifestações do plano do simbólico. Eles contavam lendas, contos, relatos mitológicos e eu registrei e analisei esse conjunto a partir da semântica estrutural. Então, ao mesmo tempo a perspectiva era da semântica com autores como A.J. Greimas e, ao mesmo tempo, com a perspectiva do estruturalismo levistrassiano; que de certa forma me acompanham até hoje. Por exemplo, no meu último livro, chamado Da Periferia ao Centro: trajetórias de pesquisa em Antropologia Urbana[5], faço uma alusão a Tristes Trópicos[6]. Vocês conhecem o livro, com as memorias e reflexões de Lévi-Strauss do tempo em que esteve em São Paulo para lecionar na USP. Ele tinha como horizonte o que todo antropólogo estrangeiro queria: o índio; imaginava que em volta de São Paulo havia tribos indígenas.... Então, como não os encontrou, da maneira como imaginava, fez o que denominou de “etnografia dos domingos”: com sua esposa, Dina, e com Mário de Andrade, saíam nos fins de semana para a periferia de São Paulo observar as festas populares. Mas, no fundo mesmo ele queria era estudar povos indígenas e então viaja para o sertão, ao encontro dos Nhambiquara, entre outros. Tristes Trópicos, porém, ficou como uma referência.


Por outro lado, há a questão da etnografia, tout court, já citada, a partir das pesquisas de Bronislaw Malinowski no litoral sul da Nova Guiné, as ilhas Trobriand. Malinowski é um dos primeiros a começar com essa perspectiva de ir a campo, conversar e entrar em contato com os seus sujeitos de pesquisa, morar com eles, viver seu cotidiano. Tal como Evans Pritchard, que trabalhou com os Nuer, povo nilota, ele é da escola britânica. Poderia citar ainda Marcel Mauss, da escola francesa, e os mais recentes, Clifford Geertz, George Marcus, Marshall Sahlins....


E claro, atualmente, um autor talvez mais conhecido por vocês, David Harvey, que traz uma interessante reflexão sobre a pós-modernidade. Seu trabalho sobre as cidades contemporâneas foi um marco para mim ao abrir uma perspectiva muito importante, um ponto de vista marxista de trabalhar a cidade com a ideia da crítica do capital e como que a cidade se remodela. Então, dentre vários autores, são esses a quem recorro, para poder manter ainda uma certa tradição na minha perspectiva. Claro que há muitos outros: poderia citar Bruno Latour, Marilyn Strathern. Tim Ingold. Estes já são mais contemporâneos e você perguntou pelos clássicos.


LEPURB: [Francivaldo Mendes]: Professor, muito dos autores que você citou, quase todos são da antropologia clássica, não é? Especialmente Malinowski, que tem um trabalho certamente um dos mais importantes da antropologia moderna. Eu não sei se foi um texto seu ou de outro antropólogo, que iniciava fazendo uma referência à quando Malinowski chegava no Pacífico ocidental e o barco dele saía? Não sei se foi você que fez.


Prof. Magnani: Foi!


LEPURB: [Francivaldo Mendes]: Nesse sentido, ao contrário de Malinowski, quando o pesquisador já pertence ao espaço social, tem relações interpessoais densamente constituídas, quais caminhos deve seguir? Procuro aqui relacionar essa hipótese ao texto que mencionei anteriormente de sua autoria.


Prof. Magnani: Sim, esse texto está no livro Os Antropólogos, da Editora Vozes, pois eles pediram para escrever um verbete, um capítulo sobre Malinowski. E eu começo justamente assim, ele acena para o navio que está zarpando e diz mais ou menos isso: “não tenho alternativa a não ser começar a pesquisa porque não tem homem branco para conversar, não sei a língua, o que vou fazer?” Começar a etnografia!” A etnografia que ele tem de encarar é num contexto completamente diferente do seu, língua, instituições políticas, costumes....


A partir daí começa-se também a trabalhar com a antropologia que em inglês é conhecida por at home: antropologia em casa. Como é que se trabalha com a sua própria cultura? Então, há uma discussão muito interessante entre Gilberto Velho e Roberto da Mata, sobre a alternativa em que o antropólogo clássico tendo de transformar o exótico em familiar e o antropólogo, na sua cultura, vai do familiar ao exótico, que é a ideia do estranhamento. Tem-se de produzir o estranhamento, metodologicamente, senão corre-se o risco de fazer uma espécie de antropologia de si mesmo, tipo autoanálise.


Como é que se produz o estranhamento na própria cultura? Esta é uma questão epistemológica.... Quando as nossas culturas viram objeto de pesquisa, em vez de buscar o “outro” longe, a gente busca esse “outro” que está ao nosso lado. Resumindo, este é um dos desafios que a antropologia contemporânea deve enfrentar.


LEPURB: [Francivaldo Mendes]: Correto. Já entrando mais um pouco no campo do lazer, professor, a gente tem, claro, como em todo campo de conhecimento, vários teóricos. Mas no lazer ou na dita sociologia do lazer, nós temos o Dumazedier na França, na Inglaterra o Parker e enfim, na América Latina nós temos outros também, muito bons teóricos que, em síntese, produziram uma teoria bem elaborada num tempo, especialmente ali na segunda metade do século XX, em que buscaram histórica e conceitualmente determinar uma ocorrência. O que eles estão chamando de lazer, inclusive há alguns mais modernos agora, como o professor Mascarenhas, fazendo uma diferenciação entre o lazer enquanto ato moderno, proveniente da revolução industrial, e práticas anteriores à evolução industrial que ele não considera como sendo lazer. Então há essas características do campo teórico, não é? Dessa forma, sem querer discutir o mérito dessas produções teóricas, como que o senhor enquanto pesquisador visualiza essas questões de ordem teórica e metodológica em relação à expressão do lazer enquanto prática humana?


Prof. Magnani: Dos autores que você citou um dos mais importantes é Joffre Dumazedier que fez a pesquisa nos anos 1960 na França e é uma referência para quem estuda lazer; aqui no Brasil podemos citar Nelson Marcellino, atualmente aposentado, também tem um trabalho importante. Na verdade, eu tenho bastante contacto com o pessoal da Educação Física na UNICAMP, na UFMG, em Curitiba (UFPR) e com a equipe da EACH/USP. (Escola de Artes, Ciências e Humanidades); assim compartilho com eles eu a contribuição da etnografia, como é que este método ajuda a pensar o tema do lazer.


A primeira tarefa é justamente desconstruindo o próprio conceito de lazer. Sem ir muito longe, no histórico do termo, a questão do lazer era muito associada ao tempo do trabalho, trabalho versus lazer, no contexto revolução industrial: trabalhava-se a semana inteira, passava-se o fim de semana descansando ou com algum entretenimento para repor as forças e continuar sendo explorado na semana seguinte. Essa era em resumo a ideia inicial da função do lazer. E os teóricos começam a perceber que o que se faz durante o lazer, pouco interessava para o sistema: para este, o que importa era que o trabalhador recuperasse as forças físicas e psíquicas para continuar trabalhando. Contudo, esse tempo e suas formas de ser preenchido começavam a despertar interesse como um tema em si.


Mas a ideia de um tempo “livre”, frente ao tempo “obrigatório” continuou como dicotomia porque supõe-se que o trabalho é difícil, é tedioso, cansa e a hora do lazer é quando a pessoa se libera, não faz nada, descansa e tal. Essa dicotomia vem acompanhando de certa maneira as pesquisas. Porém, as que temos feito mostram, por exemplo, não haver essa oposição radical A propósito, há uma historinha que conto em um de meus artigos, mais ou menos assim, para exemplificar. Acho que vocês devem até ter lido em algum lugar. É a história de um escritor que estava trabalhando em seu livro e foi convidado por um amigo para ir ao sítio dele e lá, tranquilo, continuar a escrever. Quando chega lá, encontra uma rede na varanda e nela se deita, começa a pensar sobre o que vai fazer no segundo capítulo: quais são os personagens, qual é a trama e tal. Ele estava absorto naquilo quando passa o caseiro e comenta: “Descansando, hein, doutor?” Ele respondeu: “Não, trabalhando”. Depois de um tempo, já com novas ideias esboçadas, deu uma espreguiçada e decidiu levantar da rede: andou um pouquinho por ali e viu num canteiro uma enxada, empunhou e começou a capinar, assim, mais ou menos, desajeitado. O caseiro passa de novo e observa: “Trabalhando, hein, doutor?” Ele respondeu: “Não, descansando...”


Quando se está trabalhando, ainda mais hoje em tempos de pandemia, lazer e o trabalho terminam mantendo vínculos muito estreitos. De maneira geral é possível no trabalho ter momentos de lazer e no de lazer sempre há alguém trabalhando para proporcionar o lazer. Talvez eu possa contar, não sei se agora ou mais tarde, lances de uma pesquisa que fiz com meus alunos em nove unidades do SESC na cidade de São Paulo. Foi sobre o SESC, não sei quantas unidades vocês têm em Belém, Altamira acho que não tem, não é?