Festividades de São Sebastião em Altamira-PA: por uma fraternidade das águas
- francivaldoedfisic
- 13 de fev.
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Francivaldo José da Conceição Mendes¹
Ainda que não tenha nascido em Altamira, sinto-me parte desta cidade. O rio Xingu sempre me fascinou e ainda hoje me ensina sobre uma cidade com forte identidade ribeirinha, cuja origem é marcada pela influência dos símbolos e signos da igreja católica apostólica romana.
A intersecção entre minha trajetória em Altamira, o rio Xingu e a Igreja católica ocorreu por ocasião das festividades de São Sebastião, onde a tradição e as doutrinas religiosas acolheram as manifestações esportivas (tradicionalmente, corrida e natação).
Assim, desde o ano de 2009, tenho participado da travessia de São Sebastião. Trata-se de um desafio significativo: vencer os 1.200 metros que separam a Ilha do Arapujá à orla da cidade.
Antes da operação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (UHBM) uma dificuldade adicional aos banzeiros era a correnteza que, sob a influência das correntes dos Igarapés Ambé e Altamira, fazia com que muitos nadadores se perdessem em meio ao rio e ao banzeiro cedendo à força e a soberania das águas. Hoje o rio e suas correntes já não são as mesmas, embora permaneça poderoso e imponente.
Esse texto nasce de um insight que me ocorreu por ocasião da minha participação na última edição das Festividades e do legado de São Sebastião. A partir de então, ouso lançar a ideia que segue as curvas e as correntezas do rio Xingu: a fraternidade das águas.
São Sebastião, que um dia foi soldado da guarda pretoriana, condenado à morte pelo imperador Diocleciano pela sua conversão ao Cristianismo, há mais de um milênio, continua vivo na memória da humanidade e, em Altamira-PA, tornou-se padroeiro da cidade, símbolo que atravessa gerações.
É dessa permanência e da relação entre fé e esporte que surge a ideia da fraternidade das águas. Ela nasce da relação profunda entre os símbolos e a liturgia da Igreja Católica e as experiências, sociabilidades e identidades construídas em Altamira, cidade onde o rio não é apenas paisagem: é condição, meio e finalidade da existência de um povo.
Essa relação sempre foi marcada por formas e conteúdos sem os quais não se pode imaginar nem a cidade de Altamira, nem a própria Igreja. As formas estão inscritas nos espaços como: Porto do Pepino, Porto da Balsa, Porto Seis, Porto da Funai, Porto dos Carroceiros, Porto da Prainha, Trapiche, a Prainha, a Praia do Pedral, a Praia do Pajé, a Praia do Pepino. Espaços que guardam histórias e memórias de uma cidade moldado segundo o tempo dos rios.
Nessas espacialidades, toda a vida social se conectava diretamente ao rio Xingu. Era ele a base de uma dinâmica social única. Atreladas às formas ribeirinhas, as pessoas ergueram também a cidade: o Loteamento Nossa Senhora de Aparecida (LOTAP), a conhecida “invasão dos padres”, a icônica Rua dos Operários, o Baixão do Tufi, o Açaizal, a região da ponte da Brasília. Tudo isso nasceu à beira dos igarapés Altamira, Ambé e Panelas, como se a cidade brotasse da água.
Os conteúdos, por sua vez, são gestos cotidianos que moldam uma identidade: banhar-se no rio, brincar na beira do rio, lavar roupas, pescar, contemplar o amanhecer ou o entardecer, nadar, acampar. Práticas do dia-a-dia que juntas revelam um tipo de cidade e as características de seu povo.
As Festividades de São Sebastião, pela fé e pela tradição, possibilitam justamente isso: um reencontro da cidade consigo mesma, já que muitas das formas anteriormente descritas não mais existem, como muitos daqueles conteúdos foram interrompidos.
Ainda assim, os sujeitos e suas histórias permanecem e (re)existem. Com o empreendimento hídrico, pelo menos 22 mil pessoas que viviam às margens dos igarapés Ambé, Altamira e Panelas foram expulsas dos rios e do centro da cidade, empurradas para os Reassentamentos Urbanos Coletivos — os RUCs. Um verdadeiro exílio coletivo.
Por isso, as Festividades de São Sebastião, que chegam à sua 103ª edição em 2026, ganham ainda mais relevância, especialmente para os menos favorecidos, que, por motivos alheios à própria vontade, hoje estão mais distantes dos rios e de suas possibilidades de sociabilidade e de construção fraterna pelas fluvialidades.
Nesse contexto, a Diocese do Xingu, por meio da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, cumpre um papel singular ao incorporar à tradição religiosa o esporte — neste caso, a natação. O rio volta a ser atravessado não como obstáculo, mas como encontro, um encontro fraterno.
Foi assim que, em 20 de janeiro de 2026, em meio a muito banzeiro, cinquenta participantes de ambos os sexos (crianças, jovens, adultos, idosos, pessoas com deficiência) desafiaram a imponência do caudaloso rio Xingu.
A considerar o número de moradores de Altamira (especialmente àqueles que foram expulsos para os RUCs) e a capilaridade social da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, esse número de participantes é baixo, especialmente pelas características da cidade Altamira: uma cidade onde o rio é parte da vida das pessoas.
O aumento de participantes não necessariamente precisa estar ligado à performance esportiva (mais rápido, mais forte, mais alto), muito menos de premiação por mérito, mas da possibilidade do encontro fraterno a beira rio.
É isso que chamo de fraternidade das águas: um momento em que fé, tradição e os valores cristãos se encontram com os valores do esporte, profundamente ligados à identidade de uma cidade e de um povo que nasce do rio e a ele sempre retorna.
Essa fraternidade é, afinal, o encontro do povo com o povo, da igreja com a igreja, do povo com a igreja — e de todos com o rio. As Festividades de São Sebastião tornam isso possível. E, enquanto isso acontecer, Altamira continuará se reconhecendo em suas águas.
Que em 2027 possamos viver mais uma vez as festividades de São Sebastião e a travessia do rio Xingu, testemunhado, quem sabe, o retorno dos exilados ao rio!
Altamira-PA, 25 de janeiro de 2026.
Francivaldo José da Conceição Mendes é Professor. Estuda e pesquisa sobre lazer em Altamira-PA e nas horas vagas nada no caudaloso rio Xingu.






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